MATOPIBA reúne condições para avançar na produção de aves e suínos, avalia ABPA

Presidente da entidade afirma que oferta de milho e soja favorece a região, mas juros elevados, logística e ausência de estruturas industriais ainda limitam novos investimentos

MATOPIBA reúne condições para avançar na produção de aves e suínos, avalia ABPA

                                                                                       (Foto: Keven Lopes Governo.doTocantins).

A disponibilidade de milho e soja coloca o MATOPIBA entre as regiões brasileiras com condições para ampliar a produção de aves e suínos. O avanço dessas cadeias, entretanto, ainda depende da atração de investimentos, da implantação de frigoríficos e da melhoria da infraestrutura necessária para integrar a produção rural à indústria.

A avaliação foi apresentada pelo presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, durante coletiva de imprensa realizada na última terça-feira, dia 28, para a divulgação das projeções da avicultura e da suinocultura brasileiras.

Segundo Santin, a abundância de grãos é uma das principais vantagens competitivas do MATOPIBA, região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. O maior obstáculo, atualmente, está na viabilização financeira de novos projetos, diante do elevado custo do crédito no país.

“Uma região que tem grãos em abundância, como o MATOPIBA e o Tocantins, tem todas as condições para crescer. O gargalo maior, às vezes, é o investimento. Hoje, projetos novos enfrentam um problema sério de juros no Brasil”, afirmou.

Na avaliação do presidente da ABPA, o desenvolvimento dessas atividades também depende da criação de estruturas locais capazes de conectar produtores, granjas e unidades de processamento.

“É muito mais uma situação de construir localmente as condições para instalar um frigorífico ou formar um núcleo que possa ter conexão com frigoríficos próximos da região. Mas hoje há todas as condições para crescer”, acrescentou.

Produção brasileira deve continuar crescendo

A discussão sobre novas áreas de produção ocorre em um cenário de expansão projetada para as cadeias de proteínas animais no Brasil.

De acordo com os números divulgados pela ABPA durante a coletiva, a produção brasileira de carne de frango poderá alcançar entre 16 milhões e 16,15 milhões de toneladas em 2026. Para 2027, a estimativa chega a 16,6 milhões de toneladas.

As exportações de carne de frango, que somaram 5,324 milhões de toneladas em 2025, podem atingir até 5,875 milhões de toneladas neste ano e 6,05 milhões de toneladas em 2027.

Também há previsão de crescimento no mercado interno. O consumo de carne de frango pode passar de 46,7 quilos por habitante em 2025 para até 48,1 quilos em 2026 e 49,4 quilos no próximo ano.

Na suinocultura, a produção nacional deve subir de 5,592 milhões de toneladas, registradas em 2025, para até 5,87 milhões de toneladas em 2026. Em 2027, o volume poderá chegar a 6,05 milhões de toneladas.

As exportações de carne suína podem avançar de 1,51 milhão de toneladas em 2025 para até 1,6 milhão de toneladas neste ano e 1,7 milhão de toneladas em 2027. O consumo per capita também deve crescer, chegando a 20 quilos em 2026 e a 20,4 quilos no ano seguinte.

No segmento de ovos, a ABPA projeta uma produção de 64,8 bilhões de unidades em 2026 e de 66,5 bilhões em 2027. O consumo nacional poderá alcançar 301 ovos por habitante neste ano e 312 no próximo.

O crescimento projetado amplia a necessidade de milho, soja e outros ingredientes utilizados na fabricação de ração, reforçando a possibilidade de regiões produtoras de grãos, como o MATOPIBA, atraírem investimentos voltados à produção animal.

Potencial identificado há uma década

A avaliação apresentada pela ABPA retoma um debate que já havia sido levantado por pesquisadores da Embrapa Suínos e Aves.

Publicado em 2016, com base em dados dos anos anteriores, o estudo “Potencial do Matopiba na produção de aves e suínos” concluiu que a região possuía as condições básicas para receber essas cadeias, principalmente pela oferta de cereais, disponibilidade de propriedades rurais e possibilidade de expansão da produção agrícola.

Os pesquisadores ponderaram, entretanto, que a implantação e a velocidade de crescimento das atividades dependeriam de ações coordenadas entre empresários e representantes dos governos municipal, estadual e federal.

Os dados utilizados no estudo mostram que, em 2014, o MATOPIBA produziu aproximadamente 5,29 milhões de toneladas de milho e 8,64 milhões de toneladas de soja. Desse total, o Tocantins respondeu por 448,2 mil toneladas de milho e 2,09 milhões de toneladas de soja.

O levantamento também identificou a presença de rebanhos de frangos e alguma estrutura de abate industrial no Tocantins, especialmente em municípios como Paraíso do Tocantins, Aguiarnópolis e Araguaína.

Além do acesso aos grãos, a instalação dessas cadeias poderia gerar empregos no campo e nas cidades, movimentando setores como fábricas de ração, genética, assistência técnica, sanidade animal, transporte, construção, manutenção de máquinas, processamento e distribuição.

Infraestrutura e crédito permanecem entre os gargalos

Durante a coletiva, Santin também destacou que as decisões empresariais consideram fatores como tributação, infraestrutura e condições de escoamento.

“Naturalmente, o empresário vai olhar as condições de imposto. Depois que a reforma tributária estiver implementada, não haverá mais a mesma diferença da guerra fiscal. Há a facilidade dos grãos, mas o escoamento também está entre as condições estruturantes necessárias”, afirmou.

O presidente da ABPA disse que a entidade não possui informações sobre a existência de novos projetos ou de investimentos que tenham deixado de avançar especificamente no Tocantins.

“Não temos nenhuma informação na associação sobre algum projeto em andamento ou algum projeto que não pôde se desenvolver no Tocantins por conta de situações estruturais”, explicou.

O estudo da Embrapa já indicava que a expansão da avicultura e da suinocultura exigiria estradas, fornecimento contínuo de energia elétrica, comunicação rural, mão de obra qualificada, inspeção sanitária e capacidade de financiamento.

Na conclusão, os pesquisadores apontaram que o MATOPIBA possui amplas possibilidades de desenvolvimento dessas cadeias, mas que a consolidação dependeria da atuação conjunta dos setores público e privado, com investimentos em infraestrutura, capacitação e serviços de apoio à produção.