Recorde nas exportações de carne bovina fica sob ameaça de China e União Europeia

Após um primeiro semestre histórico, setor alerta que o esgotamento da cota de exportação para a China e possíveis restrições da União Europeia podem reduzir o ritmo dos embarques

Recorde nas exportações de carne bovina fica sob ameaça de China e União Europeia
ilustrativa

As exportações brasileiras de carne bovina e de subprodutos do abate de bovinos bateram recorde no primeiro semestre de 2026, com receita de US$ 9,929 bilhões e embarques de 1,811 milhão de toneladas.

Apesar do desempenho histórico, o setor vê o segundo semestre com preocupação diante do esgotamento da quota de exportação para a China e do risco de restrições às vendas para a União Europeia.

Levantamento da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), mostra que a receita com as exportações cresceu 33,4% em relação ao mesmo período de 2025. Em volume, os embarques avançaram 7,3%.

Embora o desempenho tenha sido recorde em valor e volume, as perspectivas para a segunda metade do ano são menos favoráveis. Entre os principais fatores estão o esgotamento da quota brasileira de exportação para a China — que passa a sobretaxar em 55% os embarques realizados acima do limite estabelecido — e a possibilidade de suspensão das compras pela União Europeia a partir de setembro.

O bloco europeu avalia restringir as importações devido a divergências no modelo de certificação de rebanhos livres do uso de antimicrobianos, exigência prevista em sua legislação.

Cota chinesa deve reduzir ritmo das exportações

A estimativa é que a cota chinesa para importação de carne bovina brasileira, fixada em 1,106 milhão de toneladas para 2026, tenha sido totalmente utilizada com os embarques realizados até junho.

Com isso, os embarques destinados ao mercado chinês foram interrompidos a partir de julho, cenário que deve afetar significativamente o desempenho das exportações brasileiras no segundo semestre, até a abertura de uma nova quota no início de 2027.

No primeiro semestre, as vendas para a China somaram US$ 4,818 bilhões, alta de 50,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Em volume, os embarques cresceram 22,6%, totalizando 774,7 mil toneladas.

O país asiático respondeu por 48,5% da receita obtida com as exportações brasileiras de carnes e subprodutos bovinos. Considerando apenas a carne bovina in natura, essa participação chegou a 53%.

Segundo a Abrafrigo, a autoridade chinesa contabilizou, para efeito de controle da cota, todas as cargas que chegaram aos portos do país a partir de 1º de janeiro de 2026, mesmo aquelas embarcadas nos últimos meses de 2025. Dessa forma, o volume recebido, somado aos embarques realizados entre janeiro e junho deste ano, praticamente esgotou a quota destinada ao Brasil.

Com esse cenário, a entidade estima que o Brasil reduza em cerca de US$ 4 bilhões as vendas para a China em 2026, na comparação com 2025, quando as exportações ao país alcançaram US$ 8,845 bilhões.

Parte dessa perda, no entanto, poderá ser amenizada caso os embarques sejam retomados nos dois últimos meses do ano, com chegada das cargas aos portos chineses apenas em janeiro de 2027, dentro da quota do próximo ano.

Estados Unidos lideram crescimento entre os principais destinos

O avanço das vendas para outros mercados deve ajudar a reduzir parte dos impactos provocados pela menor demanda chinesa, com destaque para os Estados Unidos.

Segundo maior comprador da carne bovina brasileira, o mercado norte-americano ampliou as importações em 14,76% no primeiro semestre, alcançando US$ 1,465 bilhão.

Considerando apenas a carne bovina in natura, as compras chegaram a US$ 1,116 bilhão, aumento de 41%, enquanto o volume embarcado cresceu 17,3%, para 183,6 mil toneladas.

As perspectivas permanecem favoráveis para o restante do ano, principalmente porque a carne bovina ficou de fora das novas tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos aos produtos brasileiros. Além disso, o país ainda enfrenta problemas de abastecimento interno, com produção reduzida e preços elevados, fatores que favorecem o aumento das importações.

O Chile, terceiro maior importador da carne bovina in natura brasileira, também ampliou as compras no primeiro semestre. As importações cresceram 33,12%, para US$ 419,6 milhões, enquanto o volume embarcado avançou 20%, alcançando 70,3 mil toneladas.

União Europeia segue como fator de risco

As exportações brasileiras de carne e subprodutos bovinos para a União Europeia cresceram 35,26% entre janeiro e junho, totalizando US$ 482,65 milhões.

Apesar do avanço, o bloco poderá suspender as compras de carne bovina brasileira a partir de setembro, quando entram em vigor novas exigências relacionadas à comprovação de produção livre do uso de antimicrobianos nos rebanhos.

O Brasil segue negociando com as autoridades sanitárias europeias um modelo de certificação que permita manter as exportações, mas, até o momento, não há definição sobre o tema.

Diversificação ganha importância diante das incertezas

Além dos Estados Unidos, outros mercados também ampliaram as compras e podem ajudar a reduzir os impactos das restrições envolvendo China e União Europeia.

A Rússia aumentou as importações para 62 mil toneladas, alta de 34,5%, com receita de US$ 283,8 milhões, avanço de 48,6%.

Hong Kong ampliou as compras em 33,8%, para US$ 227,15 milhões. A Arábia Saudita elevou as aquisições em 31,7%, totalizando US$ 192 milhões, enquanto o Egito registrou crescimento de 32,2%, com US$ 179,8 milhões em compras.

Na contramão, o México reduziu as importações em 8,13% no primeiro semestre, para US$ 253,8 milhões.

Segundo a Abrafrigo, o crescimento das vendas para mercados alternativos reforça a estratégia de diversificação das exportações brasileiras em um cenário de incertezas no comércio internacional. No primeiro semestre, 118 países ampliaram as compras de carne bovina brasileira, enquanto outros 55 reduziram suas aquisições.