Do leite ao cacau: agricultura é a próxima fronteira da descarbonização da Ferrero
Empresa avança em energia e indústria, mas aponta o campo como o maior desafio para cumprir metas de redução de emissões até 2050.
A Ferrero tem avançado na redução de emissões em suas operações industriais, mas reconhece que a agricultura representa a etapa mais complexa dentro de sua estratégia climática. À frente da área global de Sustentabilidade, o executivo brasileiro Mário de Abreu coordena iniciativas voltadas à descarbonização de cadeias ligadas a ingredientes como cacau, leite, óleo de palma e avelã.
O setor agrícola concentra algumas das emissões mais difíceis de medir, reduzir e comprovar, como reflexo de cadeias produtivas longas, fragmentadas e distribuídas em diferentes locais. Segundo ele, a complexidade está associada principalmente à natureza das cadeias agrícolas, que envolvem múltiplos produtores, diferentes regiões e limitações históricas na coleta de dados ambientais.
“Energia você resolve em dois ou três anos. Agricultura leva 10, 15, às vezes 20 anos para demonstrar resultado”, afirma Abreu.
Escopo 3 e a importância dos dados
A explicação de Abreu ajuda a entender por que a Ferrero, apesar de ter tido avanços relevantes na indústria, vê o agro — que integra o escopo 3 — como a próxima fronteira da descarbonização, um desafio compartilhado por outras gigantes de alimentos.
De acordo com o relatório de sustentabilidade de 2024 da companhia, a Ferrero tem avançado em áreas sob controle direto, como eletrificação de fábricas, ampliação do uso de energia renovável e redução das emissões dos escopos 1 e 2.
No entanto, o maior volume de emissões está no escopo 3 — especialmente na agricultura.
Um dos principais entraves é a ausência de dados confiáveis. No caso do cacau, grande parte da produção vem da Costa do Marfim e de Gana, onde a mensuração histórica de indicadores ambientais é limitada. Em muitos casos, sequer há linha de base para medir carbono no solo, um dos principais parâmetros utilizados para avaliar impacto climático na produção agrícola.
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“Você não está falando de uma fazenda ou de uma região homogênea, mas de milhares de produtores pequenos, em realidades muito distintas”, disse em relação à compra de cacau. “Em muitos países, ninguém nunca mediu carbono no solo, então você tem que começar do zero.”
Medir antes de prometer
A cautela da Ferrero ao anunciar metas mais agressivas para o agro está ligada a esse déficit de informação. A empresa revisa suas métricas de escopo 3 conforme as exigências do Science Based Targets initiative (SBTi), que passou a separar as emissões ligadas a florestas, terra e agricultura (FLAG) das demais.
Segundo Abreu, soluções baseadas apenas em compensação, como plantio de árvores, não são suficientes sem comprovação técnica de que o carbono permanece estocado no solo ao longo do tempo. Padrões internacionais exigem monitoramento que pode chegar a 20 anos para validar a fixação de carbono — horizonte que ajuda a explicar por que muitas metas são estabelecidas para 2050.
“É por isso que muitas empresas estabelecem a meta para 2050”, disse. “Não é porque querem empurrar o problema para frente, é porque não dá para fazer antes.”
Leite, cacau e trabalho conjunto
Entre os insumos da empresa, o leite está entre as principais fontes de emissões no escopo 3, especialmente na Europa. A Ferrero desenvolve programas-piloto com produtores próximos às suas operações para medir pegadas individuais, definir metas e estruturar incentivos.

“Estamos em busca de achar as melhores soluções para trabalhar com os fornecedores e reduzir emissões”, disse Abreu. “Então o primeiro passo é ensinar, medir, criar a referência.”
No cacau, a companhia participa de iniciativas pré-competitivas como a International Cocoa Initiative (ICI), que estabelece padrões para prevenção do trabalho infantil e fortalecimento de comunidades produtoras. Também integram a iniciativa empresas como Barry Callebaut, Cargill, Hershey, Kellanova, Nestlé, Starbucks, Mondelez e Unilever.
“O sucesso da Ferrero não é sucesso se for só da Ferrero”, afirma. “Se o setor não avançar junto, ninguém avança.”
Ciência como base da estratégia
Para avançar na descarbonização do agro, a empresa tem ampliado o uso de dados e ciência. Trabalha com fornecedores especializados para mapear a pegada de carbono das principais commodities e construir linhas de base mais consistentes.
“Quanto mais você aprende, mais percebe que sabe pouco”, afirma. “Mas sem ciência, você só constrói narrativa.”
Esse foco se reflete também na estrutura interna. A área global de sustentabilidade reúne agrônomos, engenheiros, especialistas em direitos humanos e profissionais focados em análise de dados. A equipe também passou a atuar de forma mais integrada ao desenvolvimento de produtos, avaliando impactos de ingredientes ainda nas fases iniciais.
Agro como teste final
Segundo Abreu, enquanto fábricas podem ser eletrificadas e embalagens redesenhadas em prazos mais curtos, a agricultura responde ao ritmo biológico e ambiental.
“A agricultura não responde no tempo do mercado financeiro”, disse o executivo. “Ela responde no tempo da natureza.”
O esforço ocorre em paralelo à expansão dos negócios. No ano fiscal 2024/2025, o grupo registrou € 19,3 bilhões em receitas, alta de 4,6% em relação ao ano anterior. O resultado foi impulsionado por inovação de portfólio, entrada em novas categorias e aquisições, como a da WK Kellogg.
A empresa também tem ampliado os investimentos para reforçar a presença e a capacidade industrial em mercados-chave, como os Estados Unidos e a Europa, além de fortalecer sua atuação em regiões como a América Latina.
As informações são do Bloomberg Línea, adaptadas pela equipe MilkPoint.








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