Fronteira agrícola separa negócios e política: vende à China, mas confia nos EUA
Pesquisa da FGV RI com moradores do Centro-Oeste e Norte mostra que a forte dependência comercial chinesa não se converte automaticamente em alinhamento político
A China é o principal destino das exportações de soja e carne bovina da fronteira agrícola brasileira, mas pesquisa aponta maior confiança dos moradores da região nos Estados Unidos.
Uma pesquisa inédita da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV RI) indica que a dependência econômica da fronteira agrícola brasileira em relação à China não se converte automaticamente em confiança política.
Embora o país asiático tenha absorvido 80% das exportações de soja e 86% das exportações de carne bovina da região em 2022, os moradores do Centro-Oeste e Norte afirmam confiar mais nos Estados Unidos.
O levantamento, reunido no relatório Como a Fronteira Agrícola Vê as Relações Internacionais, ouviu 1.000 pessoas em 70 municípios das duas regiões. Os dados mostram que 21,8% dos entrevistados consideram os Estados Unidos “muito confiáveis”, ante 12,6% que atribuem a mesma avaliação à China — diferença superior a nove pontos percentuais.
A confiança na China também recuou quase 20 pontos percentuais desde 2017, segundo a análise de dados nacionais do Projeto de Opinião Pública da América Latina (LAPOP) apresentada no estudo, mesmo em um período de expansão dos fluxos comerciais entre Brasil e China.
"A fronteira agrícola vende para a China sem confiar nela e confia nos Estados Unidos sem depender deles comercialmente. A pesquisa mostra que confiança política e dependência econômica são coisas distintas e seguem lógicas diferentes", afirma Matias Spektor, diretor da FGV RI e um dos autores da pesquisa.
Sem alinhamento
O relatório classifica esse cenário como “interdependência sem alinhamento”.
A China aparece como compradora dominante das commodities da fronteira, enquanto os Estados Unidos mantêm presença relevante na infraestrutura produtiva e comercial da região, com atuação em insumos, sementes, fertilizantes, máquinas, logística e exportação.
Em 2022, empresas americanas como ADM, Cargill, Bunge e Gavilon responderam, juntas, por US$ 5,6 bilhões em exportações de soja da fronteira para a China, o equivalente a cerca de 48% do total embarcado pela região ao mercado chinês naquele ano.
Regulação ambiental da UE é aceita, mas gera desconfiança
Em relação à União Europeia, os dados indicam uma postura de conformidade pragmática. Quase três quartos dos entrevistados, ou 74,3%, concordam que o cumprimento das exigências ambientais europeias fortaleceria a reputação internacional do Brasil.
Ao mesmo tempo, 66,9% acreditam que a adequação às regras reduziria a competitividade dos produtos brasileiros, enquanto 61,5% avaliam que as exigências ambientais relacionadas ao comércio com a UE servem principalmente aos interesses econômicos europeus, sem benefícios reais ao meio ambiente.
Para os pesquisadores, as três percepções coexistem. A fronteira agrícola reconhece que atender às exigências europeias pode favorecer a imagem do Brasil e preservar o acesso a um mercado relevante, mas questiona os custos impostos aos produtores e os interesses por trás das regras.
O relatório destaca ainda que 42,3% dos entrevistados defendem a flexibilização das regulações ambientais domésticas, enquanto outros 25,5% são favoráveis a uma flexibilização moderada.
A leitura dos autores é que os moradores diferenciam regras externas, vistas como condição para acessar mercados, de exigências internas que recaem diretamente sobre a produção sem oferecer, na percepção dos entrevistados, uma contrapartida comercial.

Perfil político da fronteira agrícola
O estudo também traça o perfil político da região. Entre os entrevistados, 44,1% se identificam como de direita, 39,4% como de centro e 16,5% como de esquerda.
Além disso, 55,9% concordam que o governo interfere demais na vida das pessoas, e 64,3% afirmam que a regulação governamental dos negócios faz mais mal do que bem.
Para os autores, essa cultura política conservadora e antiestatista influencia a forma como os moradores da fronteira interpretam pressões externas, regulações ambientais e a atuação das grandes potências.
A fronteira agrícola, formada pelas regiões Centro-Oeste e Norte, responde por cerca de 25% das exportações brasileiras, equivalente a US$ 86,6 bilhões em 2025, e reúne estados que representam aproximadamente 15% do eleitorado nacional.
"Uma política externa que presume que a fronteira agrícola seguirá seus interesses comerciais em direção ao alinhamento político com qualquer parceiro individual interpreta equivocadamente a realidade da região", afirma Spektor.
O relatório foi organizado por Matias Spektor, Guilherme N. Fasolin, da Universidade de Vanderbilt, e Enrico Recco, da FGV RI. O documento informa que as opiniões expressas são dos autores e não refletem necessariamente as posições da FGV ou do financiador.













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