Salvaguarda chinesa: risco está no pós-cota, diz presidente da Abiec

Teoricamente, as medidas de proteção impostas desde jan/26 resultará em um excedente interno de 600 mil t de carne bovina em 2026, prevê Roberto Perosa

Salvaguarda chinesa: risco está no pós-cota, diz presidente da Abiec
Ilustrativa

Em entrevista ao boletim semanal Boi & Companhia, da Scot Consultoria, Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), disse que, teoricamente, as medidas de salvaguarda da China, impostas desde janeiro/26, resulturará num excedente interno “de cerca de 600 mil toneladas” de carne bovina em 2026.

Segundo o executivo, com a imposição de cotas aos exportadores, houve uma corrida para antecipar embarques ao mercado chinês, elevando os abates brasileiros nos primeiros meses deste ano.

Roberto Perosa, presidente da Abiec (Foto: Rodrigo Pertoti / Abiec)

O principal risco agora está no pós-cota. Após esse período, a carga tributária pode superar 60%, quando somados a outros impostos já existentes, tornando a exportação economicamente inviável na maioria dos casos”, afirmou Perosa em entrevista ao Boi & Companhia.

Ele disse que existem mercados alternativos para absorver essa produção excedente, “como o crescimento das exportações para Indonésia e Estados Unidos, mas ainda insuficientes para compensar esse volume”.

A China, lembrou Perosa, é o terceiro maior produtor mundial de carne bovina, e adotou medidas de salvaguarda para proteger sua produção interna.

Porém, o executivo da Abiec informou que o setor tem dialogado com o governo federal para buscar flexibilização das cotas ou revisão da medida. 

Há incertezas relevantes para o segundo semestre, especialmente sobre oferta, preços e capacidade de absorção da produção; o cenário pode pressionar a arroba do boi e as margens da indústria, que já operam apertadas, afetando o resultado de toda a cadeia pecuária”, alertou Perosa.

Próximos passos

Segundo o executivo, a Abiec trabalha atualmente na abertura de quatro mercados estratégicos: Turquia, Vietnã, Coreia do Sul e Japão

Na verdade, disse ele, o Vietnã já foi aberto, mas ainda está em fase de habilitação de empresas e construção de mercado. 

Lá, o consumo local é majoritariamente de carne bubalina, o que, explicou Perosa, exige mudança gradual de hábito, embora exista potencial relevante de importação. 

Na Turquia, detalhou o executivo, o avanço esbarra em exigências sanitárias consideradas incompatíveis com o atual status brasileiro de livre de febre aftosa sem vacinação. 

As negociações seguem, diante do interesse em um mercado com forte consumo, impulsionado pelo turismo”, afirmou. 

O Japão, continuou o executivo, é uma negociação de mais de 20 anos e está em fase final. A abertura inicial, antecipou Perosa, deve contemplar apenas estados do Sul, embora o setor defenda ampliação. 

“Trata-se de um mercado de cerca de 700 mil toneladas, hoje dominado por Estados Unidos e Austrália”, esclareceu, acrescentando que a estratégia brasileira é “atuar no fornecimento de carne para processamento, sem competir com produtos premium locais”

Segundo Perosa, a Coreia do Sul segue lógica semelhante, com importações entre 500 mil e 600 mil toneladas anuais, e o Brasil pretende atuar de forma complementar, atendendo a indústria local. 

A abertura desses mercados pode ampliar a diversificação das exportações brasileiras e, no médio e longo prazo, a África também surge como potencial destino, com tendência de aumento no consumo de proteína”, disse.

Estimativas para 2026

A expectativa, previu Perosa, é manter o nível de exportações de carne bovina ao longo deste ano, “com uma eventual queda marginal de 3% a 4%”.

O setor trabalha diariamente para sustentar esse volume, inclusive com auditorias em novos mercados nas próximas semanas, o que reforça a confiança em avanços no curto prazo”, destacou Perosa. 

De acordo com ele, o cenário global segue “favorável à carne bovina brasileira”. “Os principais concorrentes enfrentam ciclos pecuários baixos — a Europa no menor nível em 30 anos e os Estados Unidos em 80 anos”, afirmou o executivo.