Déficit de armazenagem pressiona produtores e amplia custos em Mato Grosso

O avanço contínuo da produção agrícola em Mato Grosso consolidou o estado como principal produtor de grãos do país, mas a infraestrutura de armazenagem não acompanhou o ritmo de expansão das lavouras.

Déficit de armazenagem pressiona produtores e amplia custos em Mato Grosso
Ilustrativa

O descompasso estrutural tem impacto direto sobre a segurança alimentar, a rentabilidade do produtor e os custos logísticos, além de reduzir a autonomia na comercialização.

A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso avalia que, apesar dos ganhos de produtividade e da adoção de tecnologias, a capacidade estática instalada é insuficiente para absorver a produção. Atualmente, cerca de 50% do volume colhido consegue ser armazenado no estado. O restante precisa ser escoado rapidamente durante o pico da safra, período de maior oferta e, consequentemente, de maior pressão sobre os preços.

O presidente da entidade, Lucas Costa Beber, afirma que o déficit vem se acentuando nos últimos anos e que os juros elevados dificultam o acesso ao crédito para construção de novos silos e armazéns. Segundo ele, o mercado internacional conhece o gargalo logístico brasileiro, especialmente em Mato Grosso, o que reduz o poder de barganha do produtor no momento da venda.

O vice-presidente da Aprosoja MT, Luiz Pedro Bier, aponta que o problema é generalizado, mas se intensifica em regiões de expansão mais recente, como o Vale do Araguaia, onde a estrutura não acompanhou o crescimento da área cultivada. Ele destaca que existem linhas como o FCO Armazenagem e o PCA, mas relata recorrente insuficiência de recursos e dificuldades de acesso.

O impacto vai além da logística. Sem capacidade própria de estocagem, o produtor é frequentemente obrigado a vender durante a colheita, quando os preços tendem a estar mais pressionados. A dependência de armazéns terceirizados e tradings amplia custos e reduz a flexibilidade comercial.

Outro entrave é a infraestrutura energética. De acordo com representantes do setor, a qualidade do fornecimento de energia elétrica em diversas regiões do estado é considerada precária, o que eleva custos operacionais. Em alguns casos, armazéns dependem de geradores movidos a diesel, tornando a operação mais cara e comprometendo a viabilidade econômica do investimento.

Na prática, os reflexos aparecem na qualidade do grão e na margem de lucro. Produtores relatam que a limitação de espaço dificulta a separação adequada da produção e obriga a venda antecipada, inclusive de lotes com maior teor de umidade, sujeitos a descontos aplicados por compradores.

Em anos mais chuvosos, a situação se agrava. Sem armazém próprio, o produtor precisa respeitar parâmetros rígidos de umidade para evitar perdas adicionais na comercialização. Já quem dispõe de estrutura pode colher com maior flexibilidade e secar o produto na própria fazenda, reduzindo penalidades e ampliando a margem.

Para a Aprosoja MT, a ampliação da capacidade de armazenagem é estratégica para o desenvolvimento do agronegócio estadual e nacional. A entidade defende o fortalecimento de políticas públicas e instrumentos financeiros que estimulem investimentos nas propriedades, argumentando que armazenar a própria produção melhora a eficiência logística, reduz perdas e fortalece a posição do produtor no mercado.

Em um estado que lidera a produção nacional de grãos, a capacidade de guardar a safra tornou-se fator determinante para preservar renda, mitigar riscos e sustentar o crescimento do setor.

Com informações da Aprosoja