Falta de diesel paralisa colheita no Rio Grande do Sul e mobiliza entidades do agro
Produtores relatam cancelamento de vendas e dificuldades para abastecer máquinas durante a safra de verão; entidades pedem denúncias e autoridades passam a investigar o caso
Relatos de falta de diesel no interior do Rio Grande do Sul começaram a afetar o andamento da colheita da safra de verão no Estado.
Produtores rurais dizem enfrentar dificuldades para abastecer máquinas agrícolas e caminhões em um momento decisivo da retirada das lavouras, principalmente de arroz e soja.
Segundo entidades do setor, pedidos de combustível deixaram de ser atendidos nos últimos dias e há registros de cancelamento de vendas ou alegação de ausência de estoque por parte de fornecedores.
Em algumas regiões, produtores passaram a buscar combustível diretamente em postos, utilizando galões para tentar manter colheitadeiras e tratores em funcionamento.
A Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) afirma que tem recebido reclamações recorrentes de produtores sobre a ausência de entrega de diesel nas propriedades nas últimas 48 horas, o que já provoca atrasos nas operações no campo.
“A colheita de arroz já chegou a 20% da área, e há produtores esperando o recebimento de diesel para dar continuidade aos trabalhos. Esse problema não é generalizado, mas se o reabastecimento não acontecer entre amanhã [9] e terça [10], podemos sim ter um impacto para as principais áreas arrozeiras”, disse Domingos Velho Lopes, presidente da Farsul.
A entidade alerta que a paralisação ou atraso nas operações aumenta o risco para as lavouras, que permanecem mais tempo expostas a condições climáticas adversas em um Estado que já acumula prejuízos provocados por eventos climáticos recentes.
Além das dificuldades de abastecimento, produtores também relatam aumentos repentinos no preço do combustível. Segundo a Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), em algumas regiões o diesel subiu mais de R$ 1,20 por litro nos últimos dias, pressionando ainda mais os custos da atividade.
Federarroz pede denúncias
Diante da situação, a Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) passou a orientar produtores rurais do Estado a informarem casos recentes de aumento no preço do óleo diesel ou dificuldades de abastecimento em estabelecimentos comerciais.
A entidade afirma que vem recebendo reclamações de diferentes regiões gaúchas sobre problemas de fornecimento. De acordo com a Federarroz, os relatos indicam duas situações principais: elevação no preço do combustível nos últimos dias e cancelamento de vendas ou alegação de ausência de estoque por parte de empresas que comercializam diesel.
O diretor jurídico da entidade, Anderson Belloli, solicitou que produtores encaminhem informações sobre postos ou empresas onde tenham ocorrido essas situações. Os dados serão reunidos pela entidade e encaminhados ao Ministério Público, à Polícia Civil, à Polícia Federal e à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), além de órgãos de defesa do consumidor, para avaliação e eventual adoção das medidas cabíveis.
ANP monitora abastecimento e afirma que há estoque suficiente
Após os relatos do setor produtivo, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) informou que passou a acompanhar o caso e intensificou o monitoramento do abastecimento de diesel no Rio Grande do Sul.
Em comunicado divulgado no fim de semana, a agência afirmou que entrou em contato com os principais fornecedores da região e constatou que o Estado possui estoques suficientes para assegurar o abastecimento regular do combustível.
“Ao longo deste fim de semana (7 e 8/3), a Agência entrou em contato com os principais fornecedores da região e apurou que o Estado do Rio Grande do Sul conta com estoques suficientes para assegurar o abastecimento regular de diesel”, informou a ANP.
Segundo a agência, a produção e a entrega do combustível seguem em ritmo normal pelo principal polo de refino do Estado, a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap).
Mesmo assim, a ANP informou que as distribuidoras serão formalmente notificadas para prestar esclarecimentos sobre volumes em estoque, pedidos recebidos e entregas efetivamente realizadas.
“Caso seja necessário, a Agência está preparada para adotar todas as medidas cabíveis a fim de assegurar a continuidade e a normalidade da oferta de diesel no país”, afirmou a autarquia.
A agência também destacou que o Rio Grande do Sul produz mais diesel do que consome e mantém níveis regulares de estoque. Segundo a ANP, até o momento não foram identificadas justificativas técnicas ou operacionais que expliquem eventuais recusas no fornecimento do produto.
Além disso, aumentos considerados injustificados no preço do combustível também poderão ser investigados em conjunto com órgãos de defesa do consumidor.
Alta do petróleo aumenta tensão no mercado
O episódio ocorre em meio a um cenário de forte volatilidade no mercado internacional de energia após a escalada do conflito no Oriente Médio. A tensão elevou rapidamente as cotações do petróleo e ampliou as expectativas de reajustes futuros nos combustíveis.

Nesta segunda-feira, os contratos futuros do petróleo Brent chegaram a superar US$ 100 por barril, enquanto o petróleo WTI, referência nos Estados Unidos, também registrou forte valorização.
Apesar da pressão externa, especialistas destacam que oscilações no mercado internacional não provocam reajustes automáticos no Brasil, já que os preços internos dependem da política comercial da Petrobras e das condições do mercado doméstico de combustíveis.
Para o agronegócio, no entanto, qualquer dificuldade de acesso ao diesel neste momento tem impacto imediato nas operações no campo. Combustíveis e fretes representam uma parcela relevante dos custos da produção agrícola, tornando o abastecimento um fator decisivo durante o período de colheita.
CNA propõe ampliar mistura de biodiesel
Em meio à pressão sobre o mercado de combustíveis, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) pediu ao governo federal o aumento da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel comercializado no país. A entidade propôs elevar o percentual de 15% para 17%.
O pedido foi encaminhado ao ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, em ofício assinado pelo presidente da CNA, João Martins da Silva.
Atualmente, o diesel vendido no Brasil já contém uma parcela obrigatória de biodiesel — combustível renovável produzido principalmente a partir de óleo de soja e outras matérias-primas vegetais. O percentual mínimo é definido pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e hoje está fixado em 15%, prática conhecida no setor como B15.
Com a proposta da CNA, a mistura passaria para B17, ou seja, 17% de biodiesel e 83% de diesel de origem fóssil. O conselho tem reunião prevista para a próxima semana, quando o tema poderá ser discutido.
Segundo a entidade, a medida poderia ajudar a reduzir os efeitos da alta do petróleo provocada pela escalada das tensões no Oriente Médio.
“Em antecipação aos eventuais impactos à população brasileira, o avanço da mistura de biodiesel representa medida importante e sustentável para ampliar a oferta de combustível no mercado doméstico, reduzir pressões sobre os custos logísticos e fortalecer a segurança energética nacional”, afirmou João Martins no documento enviado ao ministério.








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