Projeto nos EUA propõe desmantelar operações de grandes frigoríficos, como a JBS

Projeto de lei apresentando por democratas prevê desmembrar unidades de produção de gigantes do setor, limitando concentração das indústrias presentes no país

Projeto nos EUA propõe desmantelar operações de grandes frigoríficos, como a JBS
Ilustrativa

Steve Kay, respeitado comentarista dos mercados de carne/boi dos EUA e editor do Cattle Buyers Weekly, escreveu um artigo publicado pela Beef Central – portal australiano que cobre diariamente o setor pecuário global – alertando para uma polêmica ação conjunta de legisladores de Washington que busca desmembrar as operações de carne da brasileira JBS e de outras gigantes da indústria frigorífica que atuam no país.

Trata-se do projeto de lei “Family Grocery and Farmer Relief Act”, apresentado por senadores democratas em 5 de março de 2026, cujo objetivo central é reduzir os preços das carnes no mercado norte-americano e aumentar a concorrência entre as indústrias estabelecidas nos EUA.

Nos EUA, o setor de carne bovina é dominado por quatro empresas: Tyson, JBS, Cargill e National Beef, que pertence à MBRF Global Foods, com sede no Brasil, destaca reportagem recente do Wall Street Journal (WSJ). Juntas, essas empresas processam cerca de 80% da carne bovina do país, de acordo com a publicação.

Segundo o texto de Kay, caso aprovado, o novo projeto de lei impediria as empresas de processarem mais de um tipo de carne, o que obrigaria os principais frigoríficos dos EUA a desmembrar as suas unidades de processamento de proteínas.

A legislação – apresentada em março/26 pelo líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, de Nova York – também exigiria uma revisão das empresas de carne com capital estrangeiro.

“Isso poderia incluir a JBS e a gigante do processamento de carne suína Smithfield Foods, que é controlada majoritariamente pelo WH Group, com sede em Hong Kong”, observa o analista.

Como ressalta o artigo publicado na Beef Central, o projeto “imporia limites à concentração do mercado de carne bovina nos níveis regional e nacional, e daria à Comissão Federal de Comércio o poder de ordenar desinvestimentos específicos, como a venda de fábricas ou a cisão de unidades de negócios em novas empresas independentes”.

Representantes da indústria da carne criticaram imediatamente a medida dos democratas, afirmando que ela enfraqueceria a cadeia de abastecimento alimentar dos EUA e levaria a custos mais altos para os consumidores, tornando o setor menos eficiente, informa o artigo de Kay.

“A medida é absurda”, afirmou Julie Anna Potts, presidente da associação comercial Meat Institute, acrescentando: “Ela não vai reduzir os custos para os consumidores, mas claramente aumentará os custos para produtores e consumidores”.

A culpa é do rebanho

O texto de Kay recorda que, no outono passado (no hemisfério norte), o governo Trump iniciou uma investigação sobre empresas de processamento de carne, buscando evidências de possível conluio para aumentar os preços da carne bovina.

“Nenhuma dessas iniciativas, porém, aborda o motivo pelo qual os preços da carne bovina estão tão altos: o menor rebanho bovino dos EUA em 75 anos gerou uma escassez de carne bovina justamente quando a demanda por carne bovina, tanto no mercado interno quanto no externo, permanece extremamente forte”, esclarece o analista.

Ele lembra em seu texto que as perseguições dos governos aos frigoríficos dos EUA remontam a muitos anos. “Inúmeras investigações realizadas por administrações anteriores nunca encontraram evidências que justificassem a restrição da capacidade das empresas de carne de operar, como os democratas estão tentando fazer”, observa Kay.

Reportagem do Wall Street Journal ressalta que, durante o governo Biden, executivos das maiores empresas de processamento de carne foram convocados ao Congresso para depor sobre a consolidação do setor.

Na época, o governo Biden também destinou centenas de milhões de dólares a empresas menores de processamento de carne, com o objetivo de ajudá-las a competir com as gigantes do setor. Agora, a ofensiva democrata avança praticamente no mesmo sentido.

Baixa probabilidade de virar lei (no formato atual)

Embora os representantes da indústria da carne considerem que o projeto de lei proposto pelos democratas no Senado tenha poucas chances de ser aprovado, alguns afirmam que ele poderia levar o governo Trump a tomar novas medidas para reformular o setor, relata do WSJ

Segundo analistas, o projeto é mais visto hoje como uma mensagem política forte do que algo pronto para ser aprovado.

Porém, mesmo com baixa chance de aprovação, ele serve para pressionar o setor, abrindo caminho para versões mais leves.

Além disso, é preciso considerar o fortíssimo lobby da indústria de carne nos EUA.

Trata-se de um setor altamente organizado, com enorme influência política enorme e que, como mencionado neste texto, já reagiu negativamente ao projeto.