Umidade elevada dificulta manejo do trigo gaúcho

Trigo segue em desenvolvimento, mas clima preocupa

Umidade elevada dificulta manejo do trigo gaúcho
ilustrativa

As lavouras de trigo no Rio Grande do Sul tiveram pouco avanço no plantio durante a última semana devido à elevada umidade do solo, conforme o Informativo Conjuntural divulgado na quinta-feira (30) pela Emater/RS-Ascar. A estimativa é de que a cultura ocupe 814.220 hectares nesta safra. Atualmente, 98% das áreas estão em desenvolvimento vegetativo e 2% já entraram na fase de floração. O boletim destaca que a primeira metade da semana foi marcada por condições típicas de El Niño, com alta umidade, baixa luminosidade, nebulosidade persistente e temperaturas elevadas. Na segunda metade do período, as chuvas diminuíram gradualmente, mas o solo permaneceu bastante úmido, especialmente na região Noroeste, onde ocorreram os maiores volumes de precipitação. Em algumas áreas também foram registrados processos erosivos provocados pelo excesso de chuva.

Na região administrativa de Ijuí, responsável por cerca de 28% da área cultivada com trigo no Estado, a baixa luminosidade entre os dias 20 e 26 de julho limitou o crescimento das plantas. Mesmo assim, segundo a Emater/RS-Ascar, as lavouras apresentam bom desenvolvimento vegetativo, com plantas mais alongadas, folhas estreitas e coloração verde-clara, sem sinais de estresse relacionados à falta de luz ou deficiência nutricional. Aproximadamente 10% das áreas já atingiram os estádios de emborrachamento e emissão das espigas, embora ainda não tenham iniciado a floração.

Ainda em Ijuí, a elevada umidade do solo e as chuvas frequentes impediram a entrada de máquinas nas lavouras, restringindo operações como controle de plantas daninhas e adubação de cobertura. As precipitações também provocaram o arraste de parte da palhada remanescente, reduzindo a cobertura do solo em alguns pontos. Houve ainda danos localizados em talvegues e áreas de maior concentração de escoamento superficial, onde o volume e a velocidade da água causaram acamamento e amassamento das plantas. Conforme a Emater/RS-Ascar, esses impactos são pontuais e, até o momento, não comprometem de forma significativa o desenvolvimento das lavouras.

Na região de Santa Rosa, que concentra 22% da área estadual de trigo, as lavouras permanecem majoritariamente em desenvolvimento vegetativo, com apenas 2% em floração. O boletim aponta que o elevado volume de chuvas em curtos intervalos, aliado à baixa incidência de radiação solar e à alta umidade, tem afetado o desenvolvimento da cultura em diferentes fases. Além disso, produtores relatam preocupação com os impactos das chuvas sobre a fertilidade do solo. Em várias propriedades foram registrados processos erosivos, enxurradas e encharcamento temporário, resultando em perdas de solo e nutrientes. Nas áreas que já receberam adubação nitrogenada em cobertura, cresce o risco de perdas por lixiviação e escoamento superficial, o que poderá reduzir a disponibilidade de nutrientes nas próximas etapas do ciclo.

Segundo a Emater/RS-Ascar, nas áreas recém-implantadas da regional de Santa Rosa os danos provocados pela erosão podem comprometer o estabelecimento e a uniformidade das plantas. Já nas lavouras em estádios mais avançados, os efeitos tendem a aparecer principalmente na redução do potencial produtivo, em função da perda de nutrientes, do aumento da pressão de doenças e das limitações fisiológicas provocadas pelo excesso de umidade. Apesar disso, o boletim ressalta que ainda é cedo para quantificar possíveis perdas de produtividade.

Na região de Frederico Westphalen, onde estão 13% das áreas cultivadas com trigo no Estado, cerca de 95% das lavouras permanecem em desenvolvimento vegetativo e 5% já iniciaram a floração. A Emater/RS-Ascar informa que o desenvolvimento da cultura foi parcialmente limitado pela baixa disponibilidade de radiação solar e pelas chuvas intensas, que favoreceram perdas de nutrientes, principalmente nitrogênio. Os produtores concentram os trabalhos no controle de plantas daninhas, aplicações de herbicidas e fungicidas, além da adubação nitrogenada em cobertura.

Na região de Passo Fundo, responsável por aproximadamente 10% da área cultivada com trigo no Rio Grande do Sul, todas as lavouras permanecem em desenvolvimento vegetativo. Os produtores seguem realizando a adubação nitrogenada em cobertura, mas as chuvas também provocaram perdas de nutrientes, especialmente de nitrogênio.

Na regional de Bagé, especialmente na Fronteira Oeste, as lavouras mantêm bom potencial produtivo. Conforme a Emater/RS-Ascar, os volumes de chuva foram pouco significativos e as temperaturas mais elevadas favoreceram as áreas que se aproximam da fase reprodutiva. Ainda assim, a baixa luminosidade continua sendo o principal fator limitante. Em São Gabriel, as plantas apresentam bom desenvolvimento vegetativo, coloração uniforme e vigor adequado, embora alguns produtores enfrentem dificuldades para controlar populações de azevém resistentes aos herbicidas utilizados. As fortes chuvas registradas em 20 de julho mantiveram o solo encharcado durante o restante do período, impedindo a continuidade do plantio e a realização de tratos culturais. Com o encerramento da janela do Zoneamento Agrícola em 31 de julho, as áreas inicialmente previstas para Hulha Negra e Lavras do Sul não deverão ser implantadas.

Na região de Caxias do Sul, as chuvas frequentes atrasaram a semeadura, que só pôde ser retomada a partir de 24 de julho. Nos Campos de Cima da Serra, a elevada umidade poderá levar parte dos produtores a reduzir a área cultivada, já que o atraso no plantio do trigo também posterga a implantação da soja na sequência.

Na regional de Santa Maria, as lavouras apresentam estabelecimento inicial adequado e população de plantas compatível com o manejo adotado. Entretanto, os elevados volumes de chuva, associados à sequência de dias nublados, alta umidade relativa do ar e baixa radiação solar, têm reduzido a atividade fotossintética e o crescimento vegetativo. A Emater/RS-Ascar destaca ainda que o excesso de umidade favorece o surgimento e a disseminação de doenças foliares. Nas áreas com maior volume de precipitação também foram observados problemas pontuais relacionados à saturação do solo, restringindo o crescimento das raízes e dificultando os tratos culturais.

Na região de Soledade, as chuvas provocaram erosão laminar, principalmente nas áreas que haviam recebido recentemente adubação nitrogenada. Muitos produtores optaram por adiar esse manejo diante da previsão de novas precipitações intensas. Apesar disso, a Emater/RS-Ascar informa que o quadro geral da cultura permanece dentro da normalidade. Cerca de 20% das lavouras iniciaram a elongação do colmo e 80% seguem em perfilhamento. Na maior parte das áreas os principais manejos já foram concluídos, restando apenas as lavouras semeadas mais tardiamente. As doenças fúngicas, como manchas foliares, continuam sendo monitoradas e, em muitos casos, têm exigido aplicações de fungicidas.

Na região de Pelotas, a semeadura está em fase final, mas o excesso de umidade causado pelas chuvas interrompeu temporariamente a operação. De acordo com a Emater/RS-Ascar, as lavouras implantadas apresentam desenvolvimento vegetativo considerado adequado.