Cotribá projeta prejuízo de R$ 164 milhões em 2026

Em coletiva após assembleia, direção detalhou situação financeira

Cotribá projeta prejuízo de R$ 164 milhões em 2026
ilustrativa

Foto: Divulgação/Rede Social

A Cotribá inicia o processo de liquidação extrajudicial com continuidade das atividades diante de uma projeção de prejuízo de R$ 164 milhões e de um patrimônio estimado em R$ 800 milhões, dos quais cerca de 90% estão comprometidos com garantias e penhoras judiciais. Os números foram apresentados pela equipe jurídica da cooperativa durante entrevista coletiva realizada após a assembleia geral extraordinária que aprovou a medida. A nova direção terá como prioridades renegociar dívidas, reorganizar as finanças, intensificar a cobrança de devedores e manter as operações comerciais.

A liquidação foi aprovada por unanimidade dos associados presentes na assembleia. Conforme informações apresentadas durante a coletiva, 375 cooperados ingressaram na reunião, mas o quórum diminuiu ao longo dos trabalhos.

Com a decisão, Sérgio Strentzke, que ocupava a presidência da Cotribá, assumiu a função de presidente liquidante. A gestão será acompanhada pelos conselheiros fiscais Paulo Prediger, Ingo Ahlert e Marcio Garmatz.

Strentzke afirmou que a liquidação com continuidade das atividades foi a alternativa apresentada aos associados para evitar a interrupção das operações.

“Nós não tínhamos outra possibilidade de dar sequência à nossa cooperativa sem essa solução”, declarou.

O presidente liquidante explicou que o objetivo é reorganizar a instituição e, futuramente, caso as condições financeiras permitam, encerrar o processo de liquidação e retomar a estrutura regular de administração.
Patrimônio comprometido e prejuízo pressionam as finanças
Durante a coletiva, a equipe jurídica apresentou detalhes da situação financeira e patrimonial da Cotribá. Conforme os números divulgados, a cooperativa registrava faturamento de R$ 313 milhões até o período apresentado, acompanhado de uma projeção de prejuízo de R$ 164 milhões.

A administração pretende trabalhar para reduzir esse resultado negativo até 31 de dezembro, embora reconheça que não será possível eliminar integralmente as perdas.

O representante jurídico explicou que os prejuízos podem refletir diretamente sobre os associados, uma vez que as perdas da cooperativa são distribuídas conforme os critérios aplicáveis ao quadro social.

Ele também informou que as perdas do exercício anterior já haviam sido contabilizadas, com aprovação de um período de 20 anos para reintegralização, incluindo dois anos de carência.

Outro desafio envolve o patrimônio da instituição. De acordo com a equipe jurídica, os bens da Cotribá possuem avaliação aproximada de R$ 800 milhões, mas 90% estão comprometidos com alienações fiduciárias, hipotecas ou penhoras judiciais.

Diante desse cenário, a direção pretende ampliar as negociações com instituições financeiras e fundos de investimento para buscar acordos que reduzam o impacto das dívidas.

Segundo a equipe jurídica, algumas tratativas já estavam em andamento antes mesmo da aprovação da liquidação. A intenção é avaliar alternativas para reduzir o comprometimento patrimonial e os possíveis prejuízos.

A administração destacou, entretanto, que não existem garantias de resultados positivos nessas negociações.
Bloqueios judiciais dificultam a movimentação do caixa
A pressão de cobranças e bloqueios judiciais foi apontada pela direção como um dos principais fatores que dificultavam a continuidade das operações.

Strentzke relatou que a cooperativa enfrentava restrições para movimentar recursos nas contas bancárias, comprometendo a capacidade de organizar pagamentos e desenvolver atividades comerciais.

Durante a coletiva, a equipe jurídica informou que havia cinco bloqueios em andamento.

A expectativa é que a formalização da liquidação permita à cooperativa contar com a proteção legal prevista para o procedimento, criando condições para reorganizar o caixa e negociar com os credores.

Entre os encaminhamentos anunciados estão o registro da decisão na Junta Comercial e a publicação no Diário Oficial da União.

A equipe jurídica explicou que a liquidação deverá permitir uma condução mais organizada das negociações, mas ressaltou que ainda será necessário elaborar um plano de recuperação financeira.

Strentzke destacou que a nova administração terá de tomar decisões conforme a disponibilidade de recursos e a capacidade de manter as atividades.
Credores ainda não têm prazo definido para receber
Uma das principais dúvidas levantadas durante a coletiva envolve o pagamento de pessoas que possuem valores a receber da Cotribá, incluindo credores que não integram o quadro de associados.

Questionado sobre a situação de pessoas que mantinham recursos depositados na cooperativa, Strentzke afirmou que ainda não existe um cronograma de pagamentos. Segundo ele, será necessário elaborar um plano compatível com a realidade financeira da instituição.

A proposta é estabelecer metas e parâmetros relacionados à movimentação comercial e à disponibilidade de caixa, permitindo que os pagamentos sejam planejados de acordo com a capacidade financeira da cooperativa.

Strentzke afirmou que a aprovação da liquidação trouxe uma nova perspectiva para os credores, mas ponderou que não é possível assumir compromissos antes de conhecer as condições efetivas de pagamento.

A direção pretende utilizar como referência experiências de outras cooperativas que passam por processos semelhantes, especialmente a Languiru.

Durante a coletiva, a equipe jurídica informou que a Cotribá procurou a assessoria responsável pela condução da liquidação da Languiru e mantém tratativas com a consultoria financeira Tarvos.

A administração destacou que a elaboração do plano dependerá das negociações com os credores e dos resultados das atividades comerciais, sem estabelecer prazo para a quitação das obrigações.

Fábrica de rações e recebimento de grãos estão entre as prioridades

A manutenção das operações comerciais será uma das principais frentes de atuação da nova gestão.

Questionado sobre as primeiras medidas a serem adotadas, Strentzke citou a organização do modelo de gestão, a retomada das relações com parceiros comerciais e o fortalecimento das atividades produtivas.

A fábrica de rações foi mencionada como uma das prioridades. Segundo o presidente liquidante, já existem trabalhos em andamento relacionados à unidade, que deverão receber atenção durante a reorganização.

Outra frente envolve a comercialização de insumos e o recebimento de grãos.

Strentzke informou que empresas interessadas em estabelecer parcerias comerciais já haviam procurado a cooperativa e aguardavam a decisão da assembleia para avançar nas negociações.

A expectativa da direção é que a nova condição jurídica reduza as dificuldades enfrentadas nas operações com grãos, especialmente aquelas relacionadas a arrestos e bloqueios judiciais.

O presidente liquidante destacou que a cooperativa pretende recuperar a confiança dos associados para manter o recebimento da produção agrícola.

A continuidade dessas operações é considerada pela administração um dos fatores necessários para gerar recursos e sustentar o processo de reorganização financeira.

Cotribá pretende intensificar cobrança de devedores

Além das negociações com instituições financeiras, a Cotribá pretende ampliar a recuperação de valores devidos à própria cooperativa.

Strentzke afirmou que o montante de créditos a receber é elevado, mas que a perspectiva atual de recuperação desses recursos ainda é baixa.

Segundo ele, a administração deverá reforçar o trabalho de cobrança, inclusive por meio de ações judiciais, conforme a disponibilidade financeira da instituição.

O presidente liquidante relatou que a falta de recursos em caixa vinha dificultando até mesmo o encaminhamento de medidas jurídicas para recuperar valores pendentes.

Durante a coletiva, também foi informado que a cooperativa já desenvolve ações de cobrança em conjunto com alguns credores e fundos de investimento.

A intenção é ampliar essas parcerias e melhorar a capacidade de recuperação dos créditos, considerados importantes para a reorganização financeira.

Venda de unidades e ajustes no quadro de funcionários não são descartados

A situação dos trabalhadores também foi abordada durante a coletiva, especialmente em relação à manutenção dos salários e à possibilidade de redução do quadro funcional.

Questionado sobre o assunto, Strentzke afirmou que a capacidade de pagamento da cooperativa dependerá diretamente da movimentação financeira.

O presidente liquidante explicou que será necessário adequar a folha de pagamento ao faturamento e aos recursos disponíveis.

Nesse contexto, admitiu a possibilidade de a Cotribá se desfazer de determinadas unidades ou pontos de negócios, medida que poderia provocar mudanças no quadro de funcionários.

Strentzke ressaltou, porém, que não estava anunciando demissões naquele momento.

A direção não detalhou quais unidades poderiam ser negociadas nem apresentou estimativas de possíveis impactos sobre os empregos.

Segundo o liquidante, eventuais decisões deverão considerar as condições financeiras da cooperativa e a necessidade de manter uma estrutura operacional compatível com sua capacidade de geração de receitas.

Conselho fiscal acompanhará decisões da nova gestão

Com a aprovação da liquidação, a Cotribá passou a contar com uma nova estrutura administrativa.

Sérgio Strentzke assumiu a função de presidente liquidante, enquanto Paulo Prediger, Ingo Ahlert e Marcio Garmatz passaram a integrar o conselho fiscal responsável pelo acompanhamento da gestão.

Durante a coletiva, Strentzke afirmou que pretende manter um modelo de administração compartilhada, com participação da equipe técnica e dos profissionais dos diferentes setores da cooperativa.

O presidente liquidante destacou que não pretende concentrar todas as decisões sem o acompanhamento dos conselheiros e dos responsáveis pelas áreas operacionais.

Segundo ele, Paulo Prediger deverá acompanhar diariamente os trabalhos, enquanto os demais conselheiros fiscais serão chamados a participar regularmente das atividades e decisões.

A direção também pretende manter, informalmente, um conselho consultivo formado por aproximadamente 80 associados.

Embora a estrutura anterior de conselhos tenha sido destituída com a aprovação da liquidação, a intenção é continuar repassando informações aos integrantes desse grupo.

A administração informou ainda que foram eleitos três suplentes para o conselho fiscal.

A equipe jurídica explicou que os atos relacionados à liquidação deverão ser apresentados aos associados em assembleias de prestação de contas realizadas a cada seis meses.

Auditoria externa e portal de transparência estão previstos

A fiscalização das medidas adotadas durante o processo também foi discutida na coletiva.

Conforme a equipe jurídica, a cooperativa precisará contratar uma auditoria externa independente para avaliar sua situação.

Na data da entrevista, esse serviço ainda não havia sido contratado. A administração informou que teria um prazo de dois meses para providenciar a auditoria, conforme a exigência legal mencionada durante a coletiva.

O acompanhamento cotidiano do processo ficará sob responsabilidade do conselho fiscal, sem prejuízo dos procedimentos legais e das comunicações ao Poder Judiciário.

Outra medida anunciada é a criação de um portal de transparência, no qual deverão ser disponibilizadas informações sobre as decisões e os atos praticados durante a liquidação.

Segundo a equipe jurídica, a proposta é permitir que associados e demais interessados acompanhem a condução do processo e tenham acesso às informações sobre a administração da cooperativa.

Investigação sobre antigas gestões terá continuidade

Strentzke também afirmou que a apuração de possíveis irregularidades relacionadas às administrações anteriores da Cotribá continuará durante o processo de liquidação.

Segundo o presidente liquidante, a intenção é intensificar a busca por documentos e provas que possam esclarecer decisões tomadas nos últimos anos.

Caso sejam identificados elementos que indiquem irregularidades, a administração pretende encaminhar as informações aos órgãos responsáveis.

Durante a coletiva, Strentzke mencionou uma consultoria realizada em 2020 pela empresa Markstrat, que, segundo ele, havia recomendado mudanças na gestão da cooperativa.

Na avaliação do liquidante, as orientações não foram seguidas pela administração anterior. Ele também afirmou que decisões tomadas naquele período contribuíram para o agravamento da situação financeira.

As críticas representam a avaliação de Strentzke. Durante a entrevista, não foram apresentados documentos ou conclusões de investigações que permitam confirmar responsabilidades individuais.

A equipe jurídica esclareceu que a apuração de possíveis irregularidades constitui um trabalho independente da auditoria externa necessária ao processo de liquidação.

Participação dos associados será considerada fundamental

Ao longo da entrevista, Strentzke destacou que a continuidade das atividades dependerá não apenas das decisões administrativas, mas também da participação dos associados.

Segundo o presidente liquidante, a cooperativa precisará recuperar a confiança dos produtores para ampliar o recebimento de grãos, a comercialização de insumos e outras operações que contribuam para a geração de receitas.

A direção também abordou a participação da Cotribá na CCGL. Questionado sobre a possibilidade de utilização dessa participação para enfrentar as dívidas, Strentzke afirmou que a relação com a central tem importância operacional para a cooperativa.

Ele descartou a possibilidade, naquele momento, de tratar a venda dessa participação como solução para a crise financeira.

A intenção apresentada é manter e fortalecer as operações vinculadas à CCGL, em vez de considerar essa participação como uma alternativa imediata de obtenção de recursos.

Objetivo é encerrar a liquidação no futuro

Apesar das dificuldades financeiras, a nova direção afirmou que pretende trabalhar para que a Cotribá consiga, futuramente, encerrar o processo de liquidação e retomar sua estrutura regular de administração.

A equipe jurídica explicou que a liquidação com continuidade das atividades permite buscar a reorganização financeira sem estabelecer o encerramento imediato da cooperativa.

Caso a situação seja estabilizada, uma futura assembleia poderá deliberar sobre o levantamento da liquidação e a eleição de uma nova estrutura administrativa.

A direção evitou estabelecer prazos para alcançar esse objetivo.

Strentzke afirmou que a aprovação da medida representa o início de um processo que exigirá negociações com credores, reorganização das operações e participação dos associados.

O presidente liquidante também reconheceu que a recuperação não deverá ocorrer rapidamente e que será necessário acompanhar constantemente a situação financeira para definir as próximas medidas.

Com a liquidação aprovada, a Cotribá passa a concentrar os esforços na preservação de suas atividades, na redução dos prejuízos e na elaboração de um plano de pagamentos. A efetividade dessas medidas dependerá da geração de recursos, das negociações com credores e das decisões adotadas ao longo do processo.