Ferrugem asiática cresce 277porcento em áreas monitoradas por instituição ligada à Frísia, que atua no Tocantins
Levantamento realizado no Paraná e em São Paulo identifica maior presença do fungo antes da safra 2026/27 e alerta para os riscos associados às condições climáticas.
A incidência maior do fungo acende um alerta para os produtores. (Foto: Embrapa).
A incidência da ferrugem asiática da soja aumentou 277% em áreas monitoradas no Paraná e em São Paulo, segundo levantamento da Fundação ABC, instituição de pesquisa mantida pelas cooperativas Frísia, Castrolanda e Capal. O resultado acende um alerta para a safra 2026/27, diante da previsão de condições climáticas que podem favorecer o desenvolvimento da doença.
De acordo com informações publicadas pela Globo Rural, a presença do fungo nas áreas avaliadas passou de 12,5% em setembro de 2025 para 47,2% no mesmo período de 2026, crescimento de 34,7 pontos percentuais.
A pesquisa também tem ligação com o Tocantins por meio da Frísia Cooperativa Agroindustrial, que atua no estado desde 2016. Atualmente, a cooperativa conta com 110 cooperados, entrepostos em Paraíso do Tocantins e Dois Irmãos do Tocantins e escritório administrativo em Palmas. Em outubro, iniciou as obras de uma nova unidade em Pium, com investimento previsto de aproximadamente R$ 100 milhões.
Embora os dados do levantamento sejam referentes ao Paraná e a São Paulo, os resultados chamam a atenção para a necessidade de monitoramento e prevenção da ferrugem asiática, uma das principais doenças da cultura da soja. No Tocantins, o plantio da safra 2026/27 está autorizado desde 1º de outubro, após o encerramento do vazio sanitário.
Segundo Giovanni Kochinski, pesquisador da Fundação ABC, os produtores das regiões monitoradas iniciam o novo ciclo com uma quantidade maior de inóculo, material responsável pela disseminação do fungo.
“É um contraste muito grande e o produtor vai plantar com uma pressão de inóculo muito maior em comparação à safra anterior, já em decorrência do El Niño”, afirmou.
Clima favorece a sobrevivência e a disseminação do fungo
O aumento identificado pelos pesquisadores está relacionado, entre outros fatores, à ocorrência de geadas menos intensas durante o vazio sanitário nas regiões analisadas. As temperaturas permitiram a sobrevivência de plantas de soja remanescentes da safra anterior em locais como margens de estradas, cercas e barrancos.
Conhecidas como soja guaxa, essas plantas podem servir de hospedeiras para o fungo causador da ferrugem asiática, permitindo sua sobrevivência entre os ciclos de cultivo.
“O fungo causador da ferrugem asiática precisou da planta de soja para sair do cultivo de verão e chegar na safra 2026/27”, explicou Kochinski.
A preocupação também está relacionada às condições climáticas previstas para os próximos meses. Segundo o pesquisador, a maior frequência de chuvas e os períodos prolongados de umidade nas folhas, associados às perspectivas de El Niño, podem criar condições favoráveis à multiplicação do fungo e acelerar o avanço da doença.
Chuvas podem dificultar o controle nas lavouras
Um dos principais desafios para os produtores será manter os intervalos recomendados entre as aplicações de fungicidas. Com chuvas frequentes, a entrada de máquinas nas propriedades pode ficar comprometida, aumentando o risco de atrasos no controle da doença.

Segundo Kochinski, em determinadas estratégias de manejo, o intervalo entre aplicações é de aproximadamente 14 dias. A sequência de dias chuvosos, porém, pode impedir que o produtor cumpra esse prazo e deixar a lavoura desprotegida.
O pesquisador orienta que as aplicações sejam planejadas considerando as condições meteorológicas, respeitando as recomendações técnicas de cada produto. Ele também destaca a importância de uma janela de seis a oito horas sem chuva após a aplicação, para favorecer a eficácia dos fungicidas.
O controle deve começar antes do aparecimento dos primeiros sintomas, com monitoramento frequente, escolha adequada dos produtos e ajustes no manejo conforme a evolução da doença.
Produtores ajustam estratégias para a nova safra
Em Piraí do Sul, nos Campos Gerais do Paraná, o produtor Geraldo Morsink cultiva cerca de 230 hectares de soja e afirma que o controle preventivo da ferrugem já faz parte de sua rotina.
“Tivemos incidência de ferrugem na lavoura em anos anteriores, mas sempre adotamos as recomendações de manejo e controle e, por isso, não registramos perdas significativas”, relatou à Globo Rural.
Com o plantio interrompido pelas chuvas, o agricultor busca reduzir despesas com alguns insumos e fertilizantes, mas mantém os investimentos na proteção contra doenças. Na safra anterior, sua propriedade registrou produtividade média de 87 sacas por hectare.
Em Tibagi, também no Paraná, o produtor Leendert de Geus enfrenta dificuldades semelhantes. Dos 700 hectares destinados à soja, apenas 180 haviam sido semeados até o momento relatado. O excesso de chuvas tem prejudicado tanto o plantio quanto o controle de plantas daninhas.
Para reduzir os riscos, o agricultor optou por cultivares de ciclo precoce e planeja utilizar drones na aplicação de fungicidas, principalmente quando as condições do solo dificultarem a entrada de máquinas.
Monitoramento identifica fungo antes do estabelecimento das lavouras
O levantamento da Fundação ABC foi realizado entre os dias 18 e 24 de setembro, em plantas de soja guaxa e soja perene. Os pesquisadores identificaram focos do fungo com severidade superior a 10% nas proximidades de Itaberá, Itapeva e Itaporanga, em São Paulo, e Sengés, Carambeí, Imbituva e Teixeira Soares, no Paraná.
Para Kochinski, a identificação da doença antes mesmo do estabelecimento das lavouras comerciais exige atenção redobrada dos produtores.
“O mapa mostra que a ferrugem já está presente antes mesmo do estabelecimento das lavouras comerciais e o manejo deve começar antes dos primeiros sintomas na lavoura”, advertiu.
A ferrugem asiática pode causar perdas de até 80% na produtividade em situações severas, especialmente quando não há controle adequado. A doença provoca lesões nas folhas, acelera a desfolha e compromete o enchimento dos grãos.
Com o avanço da safra 2026/27, a recomendação dos pesquisadores é acompanhar as condições climáticas, monitorar a presença do fungo e planejar as medidas preventivas desde as primeiras fases de desenvolvimento da soja.
No Tocantins, os resultados registrados no Sul e no Sudeste não indicam, por si só, aumento da incidência local, mas servem como referência para a atenção dos produtores aos fatores que favorecem a doença durante o ciclo da cultura.
Com informações do Globo Rural.











