Cansado de ser chamado “chorão”, produtor desabafa e revela situação alarmante no RS

O desabafo de um produtor rural ante a lama, as dívidas e o risco de desabastecimento. Por que quem produz o alimento do país continua a ser visto como.

Cansado de ser chamado “chorão”, produtor desabafa e revela situação alarmante no RS
ilustrativa

O desabafo de um produtor rural ante a lama, as dívidas e o risco de desabastecimento. Por que quem produz o alimento do país continua a ser visto como “chorão” quando a própria sobrevivência no campo está em jogo?

Não é fácil para o produtor olhar para o horizonte, ver o calendário ultrapassar o meio de outubro e enxergar apenas a água parada e a terra revirada. Ali, onde já deveria desabrochar o verde vibrante de um arrozal em crescimento, há apenas o silêncio pesado da lama e do prejuízo acumulado.

Descalço sobre o solo encharcado, com o rosto marcado pelo sol e o semblante nitidamente angustiado, o agricultor e empresário rural Fábio Eckert gravou um desabafo visceral que ecoou profundamente pelas redes sociais (vídeo no final deste artigo). Ele não trazia apenas uma reclamação; trazia a radiografia dolorosa e angustiante de um setor que trabalha sob o teto do céu e à mercê do relógio.

“A maioria da população trata nós, produtores, como chorão. Eu escuto muito isso. Mas eu vou dizer uma coisa pra vocês, gente: a gente tá na metade do mês de outubro… Isso aqui era para estar tudo com arroz plantado, o arroz grande.“, avalia Fábio.

O contraste entre a expectativa da colheita e o cenário desolador do campo expõe um drama diário vivenciado por milhares de famílias rurais. Mas o que há por trás desse desespero? Para entender o tamanho do abismo, é preciso olhar para os números enterrados naquele chão.

A roleta-russa financeira do campo

Diferente de uma fábrica onde a produção pode ser pausada quando o tempo fecha, na agricultura o investimento é antecipado e irrevogável. Antes de colher o primeiro grão, o agricultor já empenhou fortunas no solo.

“Vocês sabiam que nós, produtores, já temos R$ 15.000 enterrados aqui nesse chão? Já tem R$ 15.000 por hectare… A gente já tem R$ 15.000 socados aqui dentro do chão. Independente disso, a gente depende do clima 24 horas por dia.“, esclarece.

Para dimensão prática, um hectare equivale a 10.000 m², uma área menor que um quarteirão urbano tradicional. Imaginar aplicar R$ 15 mil nesse espaço reduzido e ver o investimento coberto por alagamentos constantes é o pesadelo financeiro de qualquer gestor.

As contas simplesmente não fecham. De um lado, custos de produção sufocantes; do outro, a incerteza do valor de venda:

“O nosso custo a gente já tem: óleo diesel nas alturas, adubo nas alturas, preço lá embaixo, e agora começa a cair a produção. Fecha a conta de que jeito?“, questiona Eckert.

O relógio biológico e os dados do caos

O problema no plantio do arroz irrigado não é apenas a chuva em si, mas a corrida implacável contra o tempo. O ciclo biológico do arroz exige insolação e condições climáticas específicas durante a primavera. No Estado do Rio Grande do Sul, o teto ideal de semeadura se encerra na metade de novembro.

“Vocês sabiam que agora, depois do dia 15 de outubro, cada dia que atrasa o plantio a gente começa a perder produtividade?“, alerta.

A fala de Fábio reflete rigorosamente o relatório oficial do Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA), publicado em outubro de 2026:

Meta do Estado: A intenção de plantio para a safra 2026/27 no RS é de 861.778,96 hectares.

Realidade do avanço: Até a primeira quinzena de outubro, apenas 32,82% (282,8 mil hectares) dessa área havia sido semeada devido ao excesso de precipitação.

Desigualdade regional criada pelo clima:

Fronteira Oeste: Alcançou 65,81%.

Zona Sul: 52,11%.

Planície Costeira Externa: 14,59%.

Planície Costeira Interna: 10,29%.

Campanha: 8,34%.

Região Central: Apenas 5,09% a 10% semeados, exatamente a região retratada no vídeo de Fábio, onde mais de 90% da área projetada continuava refém do barro.

O limite psicológico: “Para quê se incomodar?”

O momento mais tocante da fala de Fábio ocorre quando a frustração ultrapassa a matemática e toca no esgotamento mental e emocional de quem produz alimentos sob constante risco.

“Às vezes a gente é chamado de chorão, mas sabe o que que dá vontade? Até de abandonar isso aí. De parar de produzir alimento, por mais que a gente ame. Daqui a pouco, se a gente pegasse o valor de uma colheitadeira, o valor de um trator, e investisse hoje num banco… se incomodar pra quê, né? A gente ama o que faz, mas o clima tá dando medo. A previsão é de chuva até o fim do mês. O coração tá na boca já.“, desabafa Fábio, com olhar tristonho e de fastio.

Essa reflexão sincera escancara a encruzilhada de milhares de produtores rurais brasileiros. A rentabilidade da renda fixa ou de investimentos financeiros contrasta brutalmente com a volatilidade e o risco de investir milhões de reais na terra sob condições meteorológicas incertas.

O alerta para a mesa dos Brasileiros

O desabafo encerra com uma mensagem direta à população urbana, aquela que consome o produto final nas prateleiras dos supermercados sem ter dimensão das intempéries atravessadas no campo.

“Então, quando vocês chamarem um produtor rural de chorão, dobrem a língua. Porque quando faltar o alimento na mesa de vocês, vocês vão agradecer ao produtor rural. E olha o que eu disse lá atrás, há um ano: não estamos fazendo terrorismo. Esse ano pode faltar alimento na mesa de vocês. Escute o que eu tô falando.“, diz Fábio.

A mensagem deixa uma reflexão urgente: o produtor rural não pede favores, pede respeito e empatia. Afinal, por trás de cada prato de arroz servido no país, existe um homem ou uma mulher trabalhando de canelas enterradas na lama, lutando contra o relógio e com o “coração na boca” para garantir o sustento das famílias brasileiras.

Assista ao vídeo completo desse desabafo

Assista ao depoimento de Fábio Eckert na íntegra para sentir de perto a emoção, o peso e a realidade relatados diretamente no campo.

Agronews