O que os casos das fazendas Congonhas e Colorado nos ensinam sobre conforto animal e produtividade

As propriedades em Araxá e Araras adotam abordagens distintas em escala e tecnologia para garantir o conforto do rebanho, refletindo diretamente nos índices de produtividade e saúde animal.

O que os casos das fazendas Congonhas e Colorado nos ensinam sobre conforto animal e produtividade
ilustrativa

Práticas de bem-estar animal na pecuária leiteira brasileira demonstram que o cuidado com o rebanho independe do tamanho da instalação. Uma análise de duas operações em diferentes estados ilustra como soluções distintas em escala e custo convergem para um mesmo objetivo final, que é garantir o conforto das vacas e, consequentemente, impulsionar o desempenho produtivo.

Localizada no município de Araxá, em Minas Gerais, a Fazenda Congonhas abriga cerca de 450 vacas lactantes da raça Girolando, cruzamento entre Gir e Holandês. O rebanho fica alojado em dois galpões fechados de compost barn e passa por três ordenhas diárias, alcançando uma produção média de 37 litros de leite por vaca ao dia. O espaço de convivência é rigorosamente calculado, disponibilizando 8,5 metros quadrados de área de cama e 65 centímetros de espaço de cocho por animal. A cama é revolvida regularmente e sua umidade é monitorada, visando tanto o conforto imediato quanto a prevenção de impactos na saúde dos cascos e úberes.

Outro aspecto crítico da operação mineira é o controle térmico. Os bovinos recebem banhos de aspersão e ventilação na pista de trato em quatro momentos, especificamente às 7h, 10h, 16h e 18h, além de três sessões de resfriamento que antecedem as ordenhas às 4h, 12h e 20h. O gerente da fazenda, Felipe Abranches, ressalta que ventiladores também operam diariamente no interior dos galpões para manter o ambiente de descanso seco.

A nutrição segue o mesmo nível de controle, com as fêmeas divididas em cinco grupos de produção. Após o fornecimento principal, os cochos recebem ração de quatro a seis vezes ao dia, com a propriedade almejando um consumo de 95% do alimento oferecido. Sensores eletrônicos acoplados às coleiras auxiliam nessa gestão, monitorando continuamente a ruminação e a frequência de alimentação, o que permite à equipe intervir antes que as alterações comportamentais evoluam para quadros clínicos. Os indicadores zootécnicos refletem o modelo, com prevalência de mastite de 0,8%, contagem de células somáticas no tanque de 210.000 células/ml, mortalidade de vacas adultas de 3% e taxa de prenhez de 28%.

Longe das soluções puramente eletrônicas, uma das práticas mais singulares da Congonhas é o uso de uma espécie de "cotonete" gigante para aclimatar as novilhas. Pelo menos 60 dias antes do parto, as fêmeas são transferidas para o lote pré-parto e passam por estimulações manuais no dorso, ventre e úbere. Segundo Abranches, o método ajuda a reduzir a reatividade típica do cruzamento, além de familiarizar o gado com a rota que seguirá após o nascimento dos bezerros, passando pelo curral de espera e área de manejo até a sala de ordenha. Para sustentar esse fluxo de trabalho, a gestão de pessoas baseia-se no sistema 5S, com treinamentos específicos para cada função e especialistas responsáveis pela nutrição, reprodução e saúde animal.

Cerca de 400 quilômetros distante dali, em Araras, no estado de São Paulo, a Fazenda Colorado adota uma abordagem diametralmente oposta em termos de volume estrutural para assegurar o bem-estar. Com 2.400 vacas em lactação, a propriedade conta com um galpão principal de 220 metros de comprimento por 110 metros de largura, construído dentro de uma área total de 1.700 hectares. A produção de leite atingiu uma média de 101.900 litros diários em 2025, com um rendimento de aproximadamente 43 litros por animal ao dia. Esse desempenho garantiu à fazenda a liderança entre os maiores produtores do Brasil por 12 anos consecutivos, posição cedida apenas na edição de 2026.

Dentro da infraestrutura paulista, termômetros e sistemas de resfriamento evaporativo controlam as condições climáticas. O ar quente externo é umidificado, permitindo que a evaporação da água dissipe o calor antes que ele atinja o plantel. O diretor Carlos Sergio Soriano esclarece que a estrutura funciona baseada em princípios de física, sem o uso de aparelhos de ar-condicionado. O curral de espera, local onde centenas de cabeças se concentram simultaneamente antes da ordenha, recebe atenção prioritária com aspersores e ventiladores para mitigar o estresse térmico. Apesar dos investimentos, Soriano evita associar grandes saltos produtivos a medidas isoladas, pontuando que a rotina leiteira é construída em etapas gradativas.

Para o diretor, o indicador mais nítido de sucesso no manejo advém do próprio comportamento animal. Vacas deitadas ruminando representam um sinal positivo, enquanto indivíduos que permanecem em pé por muito tempo, sem ingerir água ou alimento, acionam alertas de atenção. A ausência de medo ou tentativa de fuga na presença humana comprova a eficácia dos bons tratos aplicados. Garantir esse estado exige vigilância constante, ilustrada por intervenções simples, como a redistribuição de areia nos cubículos para evitar que obstáculos físicos impeçam o descanso das vacas.

Esse monitoramento tornou-se obrigatório após a Colorado atingir o limite físico de alojamento, visto que exceder a capacidade atual elevaria a competição por recursos e comprometeria o conforto. Para preservar o padrão exigido pelas certificações de bem-estar animal, a propriedade submete seus funcionários a treinamentos com auditores externos no mínimo duas vezes por ano.

As informações são do Food & Agribusiness.