Como Mato Grosso do Sul montou uma operação para redesenhar o mapa da citricultura
Expansão florestal, pacote sanitário, irrigação e logística ajudaram o Estado a atrair produtores de laranja em meio ao avanço do greening em São Paulo
Novos plantios de citros avançam em Mato Grosso do Sul, que já soma quase 35 mil hectares ligados à atividade e busca consolidar-se como nova fronteira da citricultura brasileira. (Foto: Álvaro Rezende)
O avanço do greening nos principais polos citrícolas de São Paulo desencadeou uma corrida silenciosa por novas áreas de produção no Brasil. Com isso, Mato Grosso do Sul decidiu agir antes da disputa ganhar escala.
O que inicialmente parecia apenas um movimento pontual de produtores em busca de novas áreas se transformou em uma estratégia coordenada de atração de investimentos envolvendo defesa fitossanitária, irrigação, logística, energia e expansão florestal.
Em poucos anos, o Estado saiu de cerca de 2 mil hectares cultivados com citros para aproximadamente 26 mil hectares já implantados e outros 8,6 mil hectares em projetos em andamento, totalizando quase 35 mil hectares ligados à atividade.
Hoje, Mato Grosso do Sul contabiliza mais de 13 milhões de mudas autorizadas para plantio — volume suficiente para implantação de cerca de 26 mil hectares — além da presença da citricultura em 44 municípios.
O secretário-executivo de Desenvolvimento Econômico Sustentável da Semadesc, Rogério Beretta, afirma que o processo começou após um alerta vindo do próprio setor produtivo.
“Uma citricultora nos procurou e disse: ‘Olha, vocês se preparem porque existe uma possibilidade dos citricultores que estão saindo de São Paulo irem para Mato Grosso do Sul. Eles estão buscando novas áreas’. Nós fomos literalmente avisados dessa oportunidade”, afirmou em entrevista ao Agrofy News, durante a Expocitros em Cordeirópolis, em São Paulo.

Segundo Beretta, a partir daquele momento o Estado passou a estruturar uma operação para criar um ambiente seguro e atrativo aos investimentos da citricultura.
“A primeira preocupação foi a defesa sanitária. Nós procuramos o Fundecitrus e fizemos um termo de cooperação justamente para entender quais medidas precisávamos tomar para que o produtor enxergasse segurança fitossanitária no Estado”, explicou.
O avanço do greening — considerado atualmente o principal problema fitossanitário da citricultura mundial — foi justamente o principal gatilho para a migração. Em diversas regiões paulistas, produtores passaram a erradicar pomares inteiros contaminados e buscar novas áreas para replantio.
“A procura começou porque áreas de São Paulo estavam com alto nível de contaminação por greening. O produtor erradicava o pomar e precisava plantar em outro local”, disse Beretta.
Pacote sanitário e irrigação abriram caminho
A partir do avanço das negociações, Mato Grosso do Sul passou a endurecer as regras sanitárias e montar uma estrutura específica para acompanhar a expansão da atividade.
O coordenador de citricultura da Semadesc, Klaus Zimmer, afirma que o movimento ganhou intensidade a partir de 2023, quando produtores paulistas começaram a procurar informações sobre terras disponíveis no Estado.
“Foi nesse momento que o governo criou uma resolução pensando em intensificar a defesa fitossanitária e avaliar possibilidades de incentivo para atrair os produtores. A partir daí começou esse movimento migratório”, afirmou.
O Estado adotou uma postura rígida no combate ao greening. “Mato Grosso do Sul está com tolerância zero em relação ao greening. Foi reforçada a legislação, houve ajustes nas regras de transporte de mudas e, quando há confirmação da doença, a erradicação é obrigatória. Não existe alternativa”, destacou Zimmer.


Além das ações sanitárias, o governo estadual também passou a simplificar processos relacionados à irrigação, energia e licenciamento.
Beretta destaca que o programa MS Irriga foi uma das ferramentas criadas para acelerar os investimentos no setor.
“Nós começamos a trabalhar a simplificação do processo de outorga para irrigação, criamos grupo de trabalho para facilitar ligação de energia e estruturamos uma coordenadoria de fruticultura justamente para fazer essa conexão entre produtores e governo”, disse.
O Estado também passou a utilizar linhas de financiamento do Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO) para apoiar a implantação de pomares.
Vale da Celulose virou corredor da laranja
Um dos fatores considerados estratégicos para a chegada da citricultura foi justamente a expansão do setor florestal em Mato Grosso do Sul.
O chamado “Vale da Celulose”, localizado principalmente na região leste do Estado, se transformou em uma das principais áreas de atração para os novos investimentos em laranja.
A infraestrutura, de acordo com Beretta, criada para atender o avanço da celulose acabou preparando terreno para a chegada da citricultura.
“Ali nós temos clima quente, áreas de pastagens disponíveis, boa logística e ainda o eucalipto funciona como uma proteção natural dos pomares de citros”, afirmou.

Na prática, a citricultura passou a aproveitar parte da estrutura logística, energética e operacional criada nos últimos anos para atender a expansão da indústria florestal no Estado.
O crescimento da base florestal em Mato Grosso do Sul foi acelerado nos últimos anos. A área de florestas plantadas saiu de 341 mil hectares em 2010 para aproximadamente 1,9 milhão de hectares na safra 2024/2025 — avanço de 565%. Hoje, o Estado concentra cerca de 80% da expansão nacional do eucalipto registrada em 2024.
Nos próximos anos, a expectativa do governo estadual é atingir 2,5 milhões de hectares de florestas plantadas.
A expansão da celulose também impulsionou investimentos em infraestrutura e logística. O Estado já possui quatro plantas industriais em operação e outras duas em construção.
“O Mato Grosso do Sul acabou criando uma infraestrutura muito forte nessa região. Fizemos concessão de rodovias, investimentos em aeroportos, ampliação do gasoduto, energia e ferrovias. Isso tudo dá sustentação para novos investimentos”, disse Beretta.
Segundo Klaus Zimmer, além da logística, a região oferece condições agronômicas consideradas favoráveis para a citricultura.
“São áreas de pastagens, com solo arenoso, boa drenagem, irrigação funcionando muito bem e clima favorável para produtividade precoce. E ainda existe muita área disponível”, afirmou.
Citricultura já virou realidade no Estado
O ritmo de expansão da atividade vem surpreendendo até mesmo o governo estadual. Segundo Klaus Zimmer, Mato Grosso do Sul já autorizou em 2026 mais mudas do que em todo o ano anterior.
“Hoje já autorizamos mais mudas do que o ano passado inteiro e ainda nem chegamos ao fim do ano. O crescimento está sendo muito rápido. A laranja já é uma realidade em Mato Grosso do Sul. Os principais players da citricultura brasileira já estão presentes no Estado”, afirmou.
Entre os grupos instalados ou em expansão estão Cutrale, Citrosuco, Cambuhy, Frucamp e Agroterenas, além de produtores independentes.
Mato Grosso do Sul segue recebendo procura de investidores e ainda possui ampla disponibilidade de áreas para expansão dos pomares.
“Essa região do Vale da Celulose ainda tem milhões de hectares disponíveis em áreas de pastagem. Nós temos condição de crescer rapidamente”, afirmou Beretta.
Bioenergia, sorgo e amendoim reforçam nova dinâmica do agro
A transformação produtiva de Mato Grosso do Sul não se limita à citricultura.
O avanço da bioenergia e das cadeias ligadas ao etanol de milho também passou a redesenhar o perfil agrícola do Estado.
Atualmente, Mato Grosso do Sul possui três usinas de etanol de milho em operação e outras duas em implantação. Com isso, o Estado passará a contar com cinco unidades produtoras de etanol de milho, consolidando-se como polo estratégico para o setor de bioenergia. Hoje, o etanol de milho já representa 37% da matriz estadual de produção de etanol.
“Essa junção de investimentos, tanto do etanol de cana como do etanol de milho, é fundamental para um posicionamento estratégico do setor de bioenergia em Mato Grosso do Sul”, afirmou Beretta.
O crescimento das usinas ajudou a impulsionar o sorgo, cuja área cultivada saiu de pouco mais de 5 mil hectares no início da década para perto de 400 mil hectares na safra 2024/2025, segundo dados do SIGA.
Segundo Beretta, a entrada das usinas mudou completamente a lógica da cultura no Estado. “Com mercado garantido, contratos de compra e estrutura de armazenagem disponível, o produtor passou a ter segurança para investir no sorgo”, disse.
O avanço do DDG, coproduto do etanol de milho utilizado em rações, também impulsionou o confinamento bovino em Mato Grosso do Sul.
“O DDG entrou muito forte na formulação de ração e isso está sustentando o crescimento da nossa capacidade de confinamento”, afirmou Beretta.
Outra cadeia que ganhou força foi o amendoim. Na safra 2024/2025, Mato Grosso do Sul se consolidou como segundo maior produtor do país, com produção superior a 56 mil toneladas — crescimento de 176,3% em relação ao ciclo anterior.
A área plantada avançou mais de 203%, alcançando 21,26 mil hectares.
Segundo a Semadesc, os municípios de Santa Rita do Pardo, Nova Andradina, Inocência, Paranaíba e Angélica concentram mais de 70% da produção estadual.
Além disso, o Estado também passou a investir em culturas consideradas estratégicas para o futuro da bioenergia, como a carinata — utilizada na produção de combustível sustentável de aviação (SAF) — e a chia, que avança na região de fronteira com o Paraguai.
Segurança alimentar e transição energética
Para Beretta, Mato Grosso do Sul está consolidando um novo modelo de desenvolvimento baseado na integração entre agroindústria, bioenergia e sustentabilidade.
“O futuro do Estado passa por dois pilares: segurança alimentar e transição energética. Hoje o mundo procura exatamente isso: alimento e energia”, afirmou.
Segundo o governo estadual, Mato Grosso do Sul já atraiu mais de R$ 81 bilhões em investimentos privados nos últimos anos e trabalha com a meta de se tornar carbono neutro até 2030.
“O futuro passa pelo Mato Grosso do Sul”, concluiu Beretta.











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