Ações migratórias atingem coração da pecuária dos EUA e ameaçam oferta de carne bovina
Fiscalização do ICE entra no caminho do boi e acende alerta para preços da proteína no mercado norte-americano
Operações federais de fiscalização migratória em regiões produtoras de carne bovina de Estados republicanos nos EUA provocaram forte reação de associações do setor no Texas, Oklahoma e Kansas, informa reportagem do The New York Times (NYT).
As associações alertaram que as ações do governo Trump para fazer cumprir as leis de imigração “vão levar a preços mais altos da carne bovina”, em um momento em que as cotações dos alimentos e dos combustíveis já estão entre as principais preocupações dos eleitores, acrescenta o texto.
As operações mais recentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) ocorreram no Kansas, perto da fronteira com Texas e Oklahoma, e aparentemente foram realizadas sem aviso prévio ou, segundo os dois senadores do Kansas, sem coordenação com as autoridades locais.
“Quando o ICE operar no Kansas, precisa coordenar-se com nossas forças locais de segurança pública”, afirmou na quarta-feira (23/9), em comunicado, o senador Roger Marshall, do Kansas, forte aliado do presidente Trump que enfrenta uma disputa de reeleição inesperadamente acirrada.
Isso ocorreu poucos dias depois de outra republicana envolvida em uma disputa eleitoral difícil, a deputada María Elvira Salazar, da Flórida, divulgar um anúncio criticando os “esforços de fiscalização migratória” que “foram longe demais”.
A ação de fiscalização, relata o NYT, começou na manhã de quarta-feira, segundo autoridades locais, em uma região do sudoeste do Kansas às vezes chamada de “triângulo dourado da carne bovina”.
Na sexta-feira (25/9), o secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, afirmou em comunicado que o ICE “não está realizando operações em locais de trabalho no Kansas”, mas sim tinha como alvo “criminosos hediondos, incluindo assassinos, estupradores e traficantes de drogas e estrangeiros em situação ilegal” que tinham ordens finais de deportação.
Keeley Young, diretora de comunicação de Liberal, no Kansas, disse ao NYT que não era a primeira vez que agentes do ICE faziam prisões na região, mas que a ação desta semana parecia mais ampla e menos direcionada.
Pessoas foram paradas na principal estrada de acesso a uma das plantas frigoríficas, disse ela, provocando mudanças nos turnos porque funcionários haviam sido detidos ou estavam com medo de dirigir até o trabalho.
“Há pessoas que têm documentação adequada e podem estar aqui legalmente, mas estão com medo de sair de casa”, afirmou.
O rebanho bovino dos Estados Unidos está no menor nível desde os anos 1950. A seca persiste em importantes regiões pecuárias. Tarifas e a guerra no Irã elevaram os preços de ração, fertilizantes e diesel, informa o NYT, acrescentando que, em junho/26, o Texas confirmou a chegada da mosca varejeira do Novo-Mundo, cujas larvas se alimentam do tecido dos animais.
“Precisamos de ajuda, e essas operações do ICE não ajudam”, disse Sid Miller, comissário de Agricultura do Texas e republicano. “Essas pessoas não são criminosas”, afirmou, acrescentando: “Isso não poderia acontecer em pior momento para os pecuaristas.”
Em comunicado conjunto, entidades que representam pecuaristas do Kansas, Texas e Oklahoma disseram entender que as agências federais precisam fazer cumprir a lei, mas classificaram as ações de fiscalização como “um impacto oneroso e desnecessário sobre produtores de gado que já sofrem com interferências políticas indesejadas tanto nos mercados quanto na cadeia física de abastecimento”.

“Essas operações do ICE estão provocando um enorme efeito de inibição entre os trabalhadores legais, documentados e qualificados que colocam carne bovina na mesa”, disseram a Kansas Livestock Association, a Oklahoma Cattlemen’s Association e a Texas Cattle Feeders Association.
Embora as plantas frigoríficas estejam localizadas no Kansas, elas abastecem uma cadeia de produção que inclui confinamentos e pecuaristas espalhados por centenas de quilômetros e vários Estados, destacou o NYT.
As entidades afirmaram que, “nos últimos dias”, as ações de fiscalização atrasaram o envio de milhares de bovinos aos frigoríficos, “resultando em milhões de dólares em receitas perdidas e custos adicionais”, além de provocar “disrupções na força de trabalho” em confinamentos, fazendas leiteiras, empresas de ração e grãos e centros de transporte.
Cerca de um quarto da produção de carne bovina dos Estados Unidos vem de grandes frigoríficos da região, pertencentes à National Beef, Tyson Foods e Cargill, que empregam mais de 10 mil pessoas.














