Brasil ameaça liderança agrícola dos EUA após reduzir diferença nas exportações para US$ 2,3 bilhões
O crescimento da produção brasileira, os avanços tecnológicos no campo e a expansão das exportações colocaram os dois países em uma disputa cada vez mais equilibrada.
O Brasil está próximo de ultrapassar os Estados Unidos na disputa pela liderança agrícola mundial, posição historicamente ocupada pelos norte-americanos. A projeção foi apresentada pelo jornal britânico Financial Times e repercutida pelo colunista Nelson de Sá, do UOL. Segundo a análise, o crescimento da produção brasileira, os avanços tecnológicos no campo e a expansão das exportações colocaram os dois países em uma disputa cada vez mais equilibrada.
Os números mostram a proximidade. Em 2025, as exportações agrícolas dos Estados Unidos somaram US$ 171,5 bilhões, segundo o Departamento de Agricultura norte-americano (USDA). No mesmo período, o agronegócio brasileiro registrou US$ 169,2 bilhões em vendas externas, conforme dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A diferença nominal foi de apenas US$ 2,3 bilhões, embora os dois países adotem metodologias diferentes para contabilizar os produtos exportados.
O desempenho brasileiro continua positivo em 2026. Entre janeiro e setembro, as exportações do agronegócio alcançaram US$ 133,6 bilhões, crescimento de 5,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. A soja e as carnes estão entre os principais responsáveis pelo resultado, com receitas de US$ 52,2 bilhões e aproximadamente US$ 26 bilhões, respectivamente.
Para Larissa Wachholz, ex-assessora do Ministério da Agricultura e especialista nas relações comerciais entre Brasil e China, os dois países já apresentam condições próximas de equilíbrio na disputa pelo protagonismo agrícola internacional. A avaliação considera não apenas o valor exportado, mas também a capacidade de produção, a participação no abastecimento mundial e a influência comercial de cada país.
China contribuiu para o avanço brasileiro
Um dos fatores que explicam a aproximação entre as duas potências é a mudança nas relações comerciais com a China, principal destino de diversos produtos do agronegócio brasileiro.
As disputas tarifárias entre chineses e norte-americanos, intensificadas a partir de 2018, alteraram os fluxos internacionais de commodities. Com a imposição de tarifas e restrições comerciais, compradores chineses ampliaram a procura por fornecedores alternativos, favorecendo as exportações brasileiras de soja e outros produtos agrícolas.
Em 2025, as exportações agrícolas dos Estados Unidos para a China caíram 66% em relação ao ano anterior, totalizando US$ 8,4 bilhões, segundo o USDA. A redução esteve associada às tarifas comerciais e à menor demanda chinesa por soja norte-americana.
O Brasil aproveitou parte desse espaço, especialmente no fornecimento de grãos destinados à alimentação animal. A capacidade de produção em grande escala e a expansão da agricultura no Cerrado contribuíram para atender à demanda internacional.
Apesar disso, a dependência do mercado chinês representa um desafio. A China busca aumentar sua produção interna, diversificar fornecedores e reduzir o uso de determinados ingredientes nas rações animais. Essas mudanças podem afetar as compras de commodities brasileiras nos próximos anos.
Tecnologia transformou o Brasil em potência agrícola
A expansão da agricultura brasileira é resultado de décadas de investimentos em pesquisa, inovação e adaptação das culturas às condições tropicais.
A atuação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), de universidades, empresas e produtores rurais permitiu ampliar o cultivo de grãos em áreas que anteriormente apresentavam limitações produtivas, especialmente no Cerrado.
Entre os avanços estão o desenvolvimento de variedades adaptadas ao clima tropical, a correção dos solos, o melhoramento genético, a mecanização e o aperfeiçoamento das técnicas de manejo.
A possibilidade de realizar duas safras em determinadas regiões, como o cultivo de soja seguido pelo milho, também aumentou a capacidade produtiva brasileira.
Esse processo contribuiu para consolidar o país entre os principais produtores e exportadores mundiais de soja, café, açúcar, algodão, carne bovina, carne de frango e suco de laranja.

No Tocantins, a expansão da produção de grãos acompanha esse movimento nacional. O estado se consolidou como o maior produtor da Região Norte e tem na soja uma de suas principais atividades agrícolas. A safra 2025/26 deve alcançar aproximadamente 9,73 milhões de toneladas de grãos, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), crescimento de 6,1% em relação ao ciclo anterior.
Estados Unidos ainda mantêm posição de destaque
Apesar da aproximação brasileira, os Estados Unidos continuam entre os maiores produtores e exportadores agrícolas do mundo, com elevada produtividade, infraestrutura consolidada e acesso a diferentes mercados consumidores.
Segundo o USDA, as exportações agrícolas norte-americanas atingiram seu maior valor em 2022 e apresentaram redução nos anos seguintes. Entre os fatores estão a queda dos preços internacionais de determinadas commodities, a valorização do dólar e mudanças na demanda de grandes compradores.
O país mantém relações comerciais importantes com México, Canadá, União Europeia, Japão e Coreia do Sul, além de forte presença na produção de grãos, carnes e produtos agroindustriais.
A disputa pela liderança mundial também depende dos critérios utilizados. O valor total das exportações, o volume produzido, a produtividade e a participação no abastecimento global são indicadores diferentes e podem resultar em classificações distintas.
O que falta para o Brasil assumir a liderança?
Embora os resultados indiquem crescimento, a possibilidade de o Brasil ultrapassar os Estados Unidos ainda depende do desempenho das exportações no último trimestre de 2026 e das condições do comércio internacional.
A evolução dos preços da soja, das carnes e de outras commodities, as compras chinesas e as políticas comerciais dos principais importadores devem influenciar o resultado do ano.
Internamente, o país enfrenta desafios relacionados ao custo dos fertilizantes, disponibilidade de crédito, armazenagem, transporte e infraestrutura logística. Esses fatores afetam diretamente a competitividade dos produtos brasileiros no mercado externo.
A ampliação dos destinos comerciais, o investimento em tecnologia e a agregação de valor à produção também serão determinantes para sustentar o crescimento.
Com a diferença reduzida nas exportações e a expansão da capacidade produtiva, o Brasil se aproxima de uma mudança importante no comércio agrícola internacional. A confirmação de uma eventual liderança, porém, dependerá dos resultados consolidados e da capacidade do setor de manter sua competitividade nos próximos anos.











